Por que correr atrás (ou fugir) da vida de au pair

Ninguém decide ser au pair por amor a crianças, mas é uma opção interessante quando o objetivo é aprender uma língua estrangeira em um ambiente de total imersão e poucos gastos.

Por algumas razões, acho que esse é um pressuposto importante para as meninas (ou meninos!) que aderem ao programa. Primeiro, porque discordo que gostar de crianças seja condição para levar uma vida tranquila como au pair. Ser paciente, sim, me parece um requisito indispensável. Ainda que a gente a-do-re crianças (e afirme com muita convicção nas cartinhas enviadas pras famílias), morar com elas muda a situação. Pensando pelo lado da criança, é compreensível: como entender que a nova moradora da sua casa, que te chama pra brincar, dançar e colorir, pode, no momento seguinte, ser o monstro a mesma pessoa que vai te obrigar a tomar banho ou fazer a lição? Controlar a medida entre ser amiguinho e/ou ser uma nova autoridade dentro de casa não é tarefa fácil para a au pair e não constitui regra clara para a criança.

Outra razão por que eu acho importante manter em mente que se trata apenas de um pretexto para um objetivo maior é que, depois de um tempo, fica difícil (ou ficou, pra mim) não considerar que seja um período de desperdício de inteligência. Mesmo indo a cursos, estudando, aprofundando o conhecimento da língua, viajando, conhecendo coisas e pessoas novas, as horas passadas com as crianças parecem tempo perdido. Ou um tempo de espera, como eu resolvi chamá-lo; aquele período sobre o qual existem mil metáforas mostrando que, do lado de lá dessa fase de motivos para reclamar dificuldades, há algo melhor.

Entre as várias possibilidades de morar fora do Brasil, talvez essa seja uma das mais baratas, confortáveis e seguras. Entre desvantagens e vantagens, pontos negativos e positivos da vida de au pair (baseada na minha experiência no sul da França), eu diria o seguinte:

SE JOGA!

Crianças podem ser ótimos professores do idioma deles. Não têm vergonha e não hesitarão em corrigir (às vezes de pirraça, mas a gente sorri e agradece por ter aprendido algo novo). Morar com uma família nativa também significa viver com um nível de conforto bem maior do que se teria alugando um quarto de residência estudantil república, por exemplo. Meu caso: casa confortável, carro pra mim, geladeira sempre cheia. Posso viajar todos os finais de semana, não cozinho, não limpo nada, não tiro o lixo, não pago contas, não vou ao supermercado. Posso usar a piscina quando quiser. Não trabalho terças nem sextas e não ganho menos por isso. Posso levantar quando quero porque só busco as crianças na escola às 17. Com o dinheiro que ganho, consigo viajar TODOS os finais de semana (Leia: Como viajar gastando pouco). Se eu amo ser au pair? Não. Não tenho deslumbramentos de “cara, tô na França”, não acho que estar na Europa é mais cool que estar no Brasil, nem acho que levaria essa vida por muito tempo. Se eu acho que alguma outra experiência internacional seria mais enriquecedora para mim que essa? Não.
PULA FORA!

Certamente existem razões mais complexas pelas quais alguém deveria desistir de ser au pair, mas vou mencionar apenas as que vivencio, nada grave, mas coisas com que é preciso saber lidar. Primeiro: se não tem paciência com crianças e não quer ser uma vitima de distimia, não venha. É preciso estar apto a respirar fundo e ignorar quando um rapaz de 8 anos te diz coisas do tipo “esse quarto não é seu; é da minha avó que morreu”. Também é preciso ter paciência para lidar com a forma com que os pais levam com a barriga a educação dos filhos. Se acham legal rir quando os pequenos dizem palavrões, que assim seja (na presença deles, claro). E’ importante perguntar se o quarto tem acesso à internet, ou você vai cair na tentação de deixá-los em frente a TV enquanto fica ao lado com o computador no colo. Outra coisa: morando na mesma casa, é difícil saber até que horas você trabalha, em que momento você pode se fechar no seu quarto ou ignorar as crianças gritando no quarto ao lado. São coisas sobre as quais não pensei antes de vir, mas que precisam ser esclarecidas com antecedência.

Quando falo sobre coisas que vivo aqui com a família, amigas diferentes reagem à mesma história dizendo “você deu muita sorte” ou “coitada de você”. Se para algumas pessoas o esforço pode parecer maior que a recompensa, para mim a decisão de vir para a França como au pair foi a melhor que eu poderia ter tomado. Mas julgamento é coisa muito pessoal: a cada um de pensar sobre a vida de au pair e escolher se foge ou se corre atrás.

3 Respostas so far »

  1. 1

    Lígia said,

    É, concordo plenamente com você. Não fui au pair por amar crianças, mas sim porque queria uma forma fácil e barata de poder ter uma experiência internacional (havia passado um tempo antes de ser au pair nos EUA, e sei como É CARO! ser au pair sai de graça se for comparar…)

    Mas, concordo também que é importante ser paciente e mais, lembrar que você está lá para trabalhar e deve a sua host family o melhor trabalho possível. Pode ser que trabalhar com criança não seja o seu sonho de vida, mas ali, na hora, é isso que você está fazendo, então trate de fazer direito!

    Bjinhos!

    Ah, gostei muito da maneira como você escreve, voltarei mais vezes!

  2. 2

    Mandy said,

    Oie Carol
    Adorei seu post!
    Nossa legal vc ser au pair na frança, tenho muitas duvidas, vou ler seu blog todo hehhehehe…
    Estou pensando em ir passar 1 mes na holanda na ksa da minha mãe, vc conhece alguma au pair perto de Ijsselstein??
    Bjão


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